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Quem esteve atenta ao Facebook e ao Twitter notou que a TAG #meuamigosecreto está bem presente nas postagens desde a terça-feira, mas não do modo que todo mundo pensa. Se nos anos anteriores a ideia da hashtag era zoar e mandar indiretas nas redes sociais, em 2015 as postagens ganharam um tom bem mais sério.  Na verdade, as mulheres estão usando essa tag tão popular nessa época do ano para denunciar e apontar comportamentos machistas comuns no cotidiano e pior, que surge de pessoas próximas. A iniciativa começou na terça-feira passada, mas foi no dia seguinte que alcançou o seu maior destaque. Isso porque 25 de novembro é o Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher. Além disso, uma página foi criada no Facebook para receber relatos e publicá-los de maneira anônima. A maioria dos relatos envolve situações de abuso, violência física e emocional que várias vezes passam despercebidos no dia-a-dia.

Famosas também participaram da campanha, entre elas a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB – RJ) e a ex-candidata à Presidência Luciana Genro (PSOL). Ainda na quarta-feira, outra tag relacionada ao tema fez sucesso e chegou a estar na primeira posição nos trending topics do Twitter foi  #NaoaViolenciadeGenero.

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Tag #meuamigosecreto

Movimentos virtuais como esses ajudam mulheres a se manifestar contras os traumas e abusos que sofreram, a incentivar o empoderamento e ao denunciar as mais diversas formas de misoginia presentes no cotidiano, em especial aquelas que são perpetuadas por pessoas muito próximas e até mesmo queridas, por exemplo.

Isso vale como uma tremenda reflexão pois mostra que as raízes do pensamento machista, preconceituoso e ignorante estão presentes em nossa cultura nas situações mais banais e que a hipocrisia pode partir não somente daquele cara que está na rua e é um desconhecido, mas do seu chefe, professor, o vizinho, ou até mesmo sua melhor amiga. A iniciativa também tem um caráter pedagógico. Afinal, a ideia também é fazer com que pessoas que reproduzem esse tipo de comportamento possam se conscientizar.


Outras iniciativas feministas

A campanha veio na esteira de outras iniciativas feministas recentes e que ganharam grande atenção da mídia. A mais recente delas aconteceu no mês de outubro com a hashtag da #MeuPrimeiroAssedio, através da qual milhares de mulheres de todo o Brasil utilizaram para relatar suas primeiras experiências com abuso sexual. A iniciativa surgiu como reação ao assédio virtual sofrido por uma participante do programa MasterChef Jr. da Band que foi alvo de comentários pedófilos nas redes sociais.

Anterior a ela, a tag #NaoMerecoSerEstuprada também foi amplamente divulgada em resposta ao número divulgado inicialmente em pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) na qual 65% dos entrevistados concordaram que mulheres com roupas curtas mereciam ser atacadas. E claro, o assunto está bem longe de terminar ou ser deixado de lado. Isso porque o movimento feminista vem ganhando cada vez mais destaque: foi reportagem de capa da revista Época, intitulada “A Primavera Feminista” – em referência à Primavera Árabe, assim como emplacou um tema importante de redação no Enem sobre a persistência da violência contra a mulher.


A polêmica:

Desde o início das publicações, a campanha foi alvo de polêmica já que não foi muito bem recebida, em especial pelos homens. Muitos reclamaram que se trata de ‘mimimi feminista’ e que ‘nem todos os homens’ perpertuam machismo. Outros, afirmaram que o certo seria apontar o dedo na cara da pessoa que teve o comportamento ruim em vez de postar indiretas em redes sociais. Um famoso que se manifestou falando a respeito disso foi o escritor Antônio Prata:

"‪#‎primeiroassédio‬ foi fundamental. ‪#‎agoraéquesaoelas‬ foi lindo. Agora, esse ‪#‎meuamigosecreto‬ …", escreveu. "Se você tem uma acusação séria, a Maria da Penha tá aí. Se você tem uma acusação menos séria, vai lá e briga com o cara. Mas ficar nessa delação velada, nesse clima de "A Lava Jato vai te pegar e você sabe que é de você que eu tô falando"… Meio esquisito, não é não?" – (Veja o post aqui)

Houve ainda quem criasse uma investida contra a hashtag original, usando #MinhaAmigaSecreta tanto para demonstrar o pensamento machista perpetuado por mulheres quanto para difamar feministas. O problema desse tipo de pensamento é que está bem longe de ser um mimimi já que diversas estatísticas mostram o quanto o machismo está enraizado na cultura brasileira e também como ele pode estar próximo.


Não é mimimi: veja as estatísticas sobre violência contra a mulher

No Brasil os números mostram que 50% dos estupros ocorridos no Brasil tem como vítimas crianças de até 13 anos, e que 68% dessas agressões são cometidas por pessoas próximas, como familiares ou amigos. Um estudo realizado pelo Instituto Avon em 2014 mostrou que 78% das mulheres entre 16 a 24 anos relatou já ter passado por algum tipo de assédio.

No primeiro semestre de 2014, um levantamento feito dos atendimentos do número 180 mostrou que, em 82,82% deles as vítimas tinham relação familiar com o agressor. Em 2014, uma pesquisa realizada pelo IPEA apontou que 58% dos entrevistados declararam que ‘se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros’. A mesma pesquisa também apontou que 65% dos entrevistados pensavam que mulher agredida que continua com o marido deve gostar de apanhar. Definitivamente não é mimimi.

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Veja alguns dos relatos publicados no Twitter:

  • #meuamigosecreto diz que n é machista mas acha q a moça pede pra ser estuprada pq anda de saia na rua.
  • #meuamigosecreto olha pra todas as garotinhas na rua e não deixa a filha usar shortinho por causa dos pedófilos.
  • #meuamigosecreto trai a namorada sem parar, mas não termina com ela, porque a ama. E as outras são só pq ele é homem e tem necessidades.
  • #meuamigosecreto paga de defensor da igualdade nas redes sociais, mas humilha mulher nos grupinhos do whatsapp
  • #meuamigosecreto acha que pode passar o rodo antes de casar, mas a futura esposs dele tem que ser pura e virgem
  • #meuamigosecreto se diz feminista mas usa o fato de ser professor pra pegar aluna menor de idade
  • #MeuAmigoSecreto não entende o que mulher faz na rua à noite. Depois reclama que foi estuprada e não sabe porque.
  • #MeuAmigoSecreto se diz feminisita, mas nunca acredita quando uma mina fala que sofreu abuso.

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